Esse texto é uma contribuição de meu amigo oceanógrafo João Pedro Vieira, o Jota do Coletivo Socioambiental.
"Quarta-feira, 07 de abril de 2010, o Brasil pára diante das notícias acerca da tragédia ocorrida no Morro do Bumba, em Niterói, onde um deslizamento atingiu mais de setenta residências e deixou, até agora, mais de cinquenta mortos e dezenas desaparecidos, feridos e desabrigados. A tragédia chamou atenção pela dimensão, mas não seria diferente de tantos outros deslizamentos que ocorrem em várias cidades brasileiras em épocas de chuva, se não fosse outro detalhe relacionado ao histórico do local, um antigo depósito irregular de lixo, ou seja, um lixão.
Não vou aqui escrever sobre a falta de planejamento urbano nas cidades brasileiras e a inoperância das autoridades, em todos os níveis, em relação às ocupações irregulares, especialmente em morros e encostas. A reflexão que gostaria de provocar vai um pouco além e se foca nesse detalhe relacionado ao caso de Niterói, a questão do antigo lixão, um fator que favoreceu muito o desfecho da tragédia.
Literalmente, aquelas casas, que hoje se encontram como escombros soterrados sob toneladas de lama e lixo em decomposição, foram construídas sobre uma montanha de resíduos. Mas, como deve ser óbvio para todos, aquele lixo não apareceu lá por acaso, ele não é obra da geologia natural daquela área. Todo aquele lixo foi, décadas atrás, depositado inadequadamente no local, o que infelizmente ainda acontece na maioria dos municípios brasileiros.
Então, de onde veio todo esse lixo? Veio de uma cultura social baseada no consumismo desenfreado, que cultua o supérfluo e o descartável, uma cultura social imposta por um sistema econômico baseado exclusivamente nas leis do mercado, onde o lucro é o mais importante, e abastecida por um apelo midiático cada vez mais forte, que aliena a capacidade crítica da sociedade, impelindo as pessoas a orientarem suas vidas na obtenção de bens materiais. O resultado disso é o consumo cada vez maior de produtos, com a falsa promessa que melhorar a qualidade de vida das pessoas, o que implica em uma produção cada vez maior de resíduos.
É preciso, portanto, analisar a solução para a problemática da produção de resíduos não só na correta destinação do mesmo em aterros sanitários adequados, mas sim em um profundo processo de reestruturação da sociedade, o qual passa por diversos setores, mas especialmente pela educação, formal e informal, no sentido de transformar os valores hoje cultuados pela sociedade consumista.
Mas essa transformação não está só nas mãos de autoridades e governantes. Ela é também responsabilidade individual de cada um e passa por uma reflexão sobre nosso papel como cidadão e parte da teia da vida do Planeta Terra. Não seria já passada a hora de cada pessoa começar a refletir acerca de seus hábitos de consumo, descarte e produção de lixo? Não seria a hora de analisar todas as consequências negativas trazidas pelo descarte inadequado do lixo? Mais, não seria a hora de transformar efetivamente nossos hábitos de consumo, de forma que a produção de lixo possa diminuir significativamente? Serão necessários quantos alagamentos, deslizamentos e tragédias como a de Niterói para que uma mudança efetiva aconteça na sociedade? Eu espero que mais nenhum. E espero que o que aconteceu sirva ao menos de alerta para que a sociedade abra os olhos para o problema."
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